Representantes afirmam que diálogo entre governo, comércio, indústria e população é fundamental para que a logística reversa aconteça na prática
A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) está em vigor há pouco mais de um ano e nesse período ações importantes foram realizadas, mas ainda há muito trabalho a ser feito. A expansão tecnológica das últimas décadas barateou a fabricação de produtos como computadores, televisores e telefones celulares. Entretanto, com o crescimento desse mercado, surgiu um sério problema no Brasil: os resíduos eletroeletrônicos. Infelizmente, a população ainda não destina esses insumos de maneira correta, o que pode acarretar em sérios problemas ambientais e à saúde humana devido aos metais tóxicos utilizado na produção desses aparelhos. Para apontar soluções e propor o diálogo entre os setores público e privado a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), realizou na manhã desta quinta-feira, o seminário “Resíduos Eletrônicos – Estratégias para a Reciclagem e Logística Reversa”.
Para o presidente do Conselho de Sustentabilidade da FecomercioSP, José Goldemberg, o problema com o descarte incorreto de insumos foi impulsionado pela Revolução Industrial. “O hábito de lançar resíduos no local mais próximo é histórico”, explica. “Hoje, é melhor prevenir do que remediar e a população precisa aprender a dispor dos resíduos de maneira adequada”, completa. Segundo ele, o principal problema para que a PNRS aconteça na prática é a dificuldade em estabelecer a logística reversa. “Não ouvi críticas à Lei até agora, apenas dúvidas de como fazer o procedimento”, revela Goldemberg.
O secretário de Estado Adjunto do Meio Ambiente, André Rizek, lembra que a Política Nacional de Resíduos Sólidos foi inspirada na legislação vigente no Estado de São Paulo e consolidou alguns princípios que já eram realizados pelo comércio e indústria paulista. Para ele, o diálogo entre o poder público e privado se faz fundamental para pôr os deveres em prática. “Vamos chegar aos modelos ideais por acordo, porque a imposição legal do governo não é a solução”, afirma Rizek. Já para André Luis Saraiva, diretor do departamento de responsabilidade socioambiental da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), o principal elo é o consumidor. “Conscientes todos são, mas quantos estão comprometidos? O que antecede a compra é a palavra desejo e ele não tem regra”, opina.
Outro problema apontado no debate foi que devido a cooperativas desorganizadas que atuam de forma inadequada, boa parte do material eletroeletrônico que poderia ser reaproveitado acaba se perdendo. “Há uma rede predatória que explora o coletor e muitos itens são desperdiçados”, afirma o diretor presidente da Cooperativa de Resíduos Sólidos Eletroeletrônicos de São Paulo (Coopermiti), Alex Pereira. Segundo ele, quando os equipamentos estão em bom estado para uso, ainda é possível capacitar os coletores envolvidos na logística reversa. “Com o resíduo eletroeletrônico em funcionamento nós conseguimos, de alguma forma, transmitir o conhecimento técnico para pessoas carentes”, conta.
A fim de ajudar na solução do problema gerado a partir dos resíduos eletroeletrônicos, a Universidade de São Paulo (USP), realiza programas para receber os equipamentos em desuso para enviá-los a reciclagem após a desmontagem dos componentes. Outro programa desenvolvido pela universidade é voltado para conscientizar os coletores dos perigos a saúde ao manusear os insumos eletrônicos de maneira inadequada. “Tivemos que explicar que alguns desses aparelhos contêm substâncias tóxicas que podem prejudicá-los e a natureza também”, conta a diretora do Centro de Descarte e Reúso de Resíduos de Informática (Cedir) da USP, Tereza Cristina Carvalho.
Os especialistas presentes no evento concordam que a logística reversa de eletroeletrônicos e qualquer outro insumo só vai ser difundida por meio de soluções integradas entre o governo, comércio, indústria e o consumidor. É preciso despertar na população o conceito de responsabilidade compartilhada para que a sustentabilidade aconteça, de fato, na prática.
Sobre a FecomercioSP
A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) é a principal entidade sindical paulista dos setores de comércio e serviços. Responsável por administrar, no Estado, o Serviço Social do Comércio (Sesc) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), representa um segmento da economia que mobiliza mais de 1,8 milhão de atividades empresariais de todos os portes e congrega 152 sindicatos patronais que respondem por 11% do PIB paulista – cerca de 4% do PIB brasileiro – gerando em torno de cinco milhões de empregos.
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